Post em destaque

O dia em que perdi meu primeiro namorado

Ainda não eram os anos 2000. Eu dançava naquela sala calorenta. Tudo tão abafado que a porta ficava aberta e você me olhava do lado de fora....

31.8.16

Sushi, chá-bar

Eu me lembro tão claramente de a gente saber das notícias e você ter certeza de que se desenhava um golpe. Isso foi nos primeiros protestos, aqueles que começaram com os 20 centavos. Eu, incrédula, embarcava nos planos de mudar país, mais porque tínhamos uma vida juntos e precisávamos pensar no que fazer dela caso o impossível acontecesse. Pensamos no Canadá, mais brincando do que qualquer outra coisa. Não tem mais nós e teve golpe. O impensável aconteceu. Não existem palavras que deem conta. Quem será o novo Vandré? Quem vai nos dar o que cantar já que a fala anda embargada?

28.8.16

Só sei dançar com... você?

Tem fase que é tão cagada, mas tão cagada, que chega mensagem de um cara gatinho no WPP, e é engano. Quem faz isso? Pelo menos, descobri ontem que o crush misterioso da dança tem uma completa falta de traquejo social, de modo que: voltamos ao jogo (aparentemente, ele não sacou as segundas intenções). Encantos à parte (e lá se vão praticamente seis meses de uau), gosto muito de dançar com ele. É que eu não confio muito, em geral. Então, quando algum moço quer ousar no passo, leia-se: me girar e depois me deixar perto do chão, sustentada apenas pelo braço dele, eu faço a robótica e não cedo. Vai que o rapaz me derruba? Mas com o crush misterioso é diferente. Ele já sacou que eu tenho medo e me pega de surpresa, tão rápido que quando eu vejo, já estou a centímetros da pista. Volto morrendo de rir e jurando vingança. Sempre um prazer, caro crush.

P.S.: meu modo de lidar com a dança: um belo resumo do meu modo de lidar com os sentimentos, ultimamente. Fazendo a robótica pra evitar o improviso, tudo porque: medo - temos muito. Até que apareça alguém mais rápido do que eu e me deixe no chão antes mesmo de eu conseguir balbuciar qualquer desculpa.

26.8.16

O que estamos fazendo

Estamos tagueando todos os posts; estamos editando alguns deles (coisa pouca, só quando tem erro); estamos migrando posts de outros blogs. O que queremos: o ultimate Nada Profissional, mais completo, mais sincero e sempre com esse layout so last decade.

P.S.: morrendo pra ver qual tag fica maior na nuvem. Aposto que é cmo fas, crush ou ainda: educação sentimental.

O divã da discórdia

Desde que me tornei mais psicanalista do que jornalista (pois é, quem diria), tenho tentado preencher todo o meu tempo com o consultório. De modo que conversei com a dona da clínica número 2 e pedi mais horários para além dos meus dias cativos, que eram a segunda e a sexta. O problema é que só tem uma sala com divã, a 1, mas ela não está totalmente livre. E então eu teria de atender na 3, que não tem divã, quando a 1 estiver ocupada. Eu disse não. Ainda assim, a dona da clínica tem insistido muito para que eu tope a 3. "Só num dia da semana", ela diz. Assim, como se o divã fosse uma peça do mobiliário, como um abajur ou um tapete. Eu fico preocupada em atender menos, é claro. Mas não dá pra ceder nisso. Prefiro ter um analisando seguindo a ética lacaniana, que escolhi, a ter 50 na gambiarra. Teve um dia em que ela perguntou: "Mas você precisa colocar todos os pacientes no divã?". Não, eu não preciso. Eles é que precisam. Há os que irão e voltarão para a poltrona. Há os que jamais irão, por uma questão de estrutura. Nunca sabemos quem fará o quê até que algo se produza. Mas o divã precisa existir, principalmente, para que as associações sejam livres #nãopassarão #freudtamojunto #meabraçalacan #unidosdoinconsciente

25.8.16

Os psicanalista tudo de All Star, menina. Tinha que ver que bonito que tava

Voltei agorinha de um evento da Cult, criado pra ~problematizar~ a última edição, sobre psicanálise. Tava cheio de analista jovem, como eu. Reparei que os meninos até estavam de paletó (acho que mais pelo frio), mas nos pés, ahhh nos pés: tinha All Star - e era surrado.

Meu supervisor, que é um tico mais velho que eu, também usa (inclusive, coloca sempre um dos pés em cima da poltrona, bem de humanas). Minha ex-analista, hoje amiga, contou que teve uma analisanda que ficou só porque ela usava. Se estivesse de sapato, adeus transferência.

Eu uso. No começo de tudo, tentei a roupa social. Desisti logo, pensando que a gente nunca sabe onde qualquer coisa nossa vai pegar no outro - pro bem ou pro mal. Vai ter quem goste (um dos meus analisandos adora os meus coturnos), vai ter quem saia correndo (capricornianos em geral).

Por antecipar essa falta de controle, acho que a gente tem que usar o que bem quiser. Os analisandos podem ter a fantasia que quiserem também, a gente tem mais é que tirar a nossa. O Contardo falou disso naquele livrinho mara dele, "Cartas a um jovem terapeuta". (Caso nenhum analista - ou aspirante a - tenha espalhado por aí, é a bíblia dos novinho tudo). É assim (grifos meus):

[...] Nos últimos tempos de minha análise, em Paris, quando já era jovem analista, fui convidado a um baile de máscaras. O convite dizia que a fantasia era obrigatória. Claro, assim como vários jovens colegas, aceitei o convite com prazer, cogitei uma fantasia, mas, na hora do vamos ver, cheguei na festa com meu terno de flanela. Óbvio, ninguém me barrou na porta. No entanto, mais tarde, enquanto eu conversava numa roda composta de convidados sem fantasia, a dona da casa se aproximou e perguntou, irônica: "E vocês, então, cadê suas fantasias?". Com boa presença de espírito, um amigo respondeu: "Mas estamos todos fantasiados, fantasiados de psicanalista lacaniano". A piada produziu a hilaridade geral porque dizia a exata verdade: todos, naquela roda, tínhamos preferido não nos fantasiar porque queríamos convencer o mundo (sem contar os eventuais pacientes que poderiam estar na festa) de que éramos psicanalistas

Resultado: estávamos mesmo fantasiados de psicanalista. Se tivéssemos escolhido uma máscara de Arlequim ou Pierrô pelo prazer da festa, estaríamos menos fantasiados e, com isso, talvez seríamos mais psicanalistas. Mas a história não acaba aqui.

No meio da festa, eis que alguém me assinala que meu analista tinha chegado. E, de fato, Serge Leclaire estava lá, numa suntuosa fantasia de dama do século XVIII, talvez a própria marquesa de Merteuil das "Ligações Perigosas", com tudo o que tinha direito: amplo vestido rendado, leque na mão, pancake e pó quase branco, alta peruca, sinal falso e generoso decote (depilado, claro). Pois bem, não era a hora de minha sessão, mas ganhei de graça uma das melhores interpretações de minha análise.

Isso me faz lembrar das duas ocasiões em que meu analista não poderia ter sido menos analista (ou, seguindo a lógica do Contardo, mais). A primeira foi durante o lançamento de um livro escrito por um colega. Nesse tempo, eu ainda tinha muita dificuldade em lidar com o fato de que ele é uma pessoa pública. Fingia que não via, saía correndo e depois elaborava na sessão (eike louca).

Eu o vi de relance, evitei reparar. Meu ex-marido fez bem o oposto. Ele disse: "Você viu a camiseta dele?". Eu disse que não, tentando não dar muita importância. Claro que surtiu o efeito contrário, e ele foi narrando, num crescendo: "É verde, muito verde. Tem um símbolo enorme nela". Quis evitar, mais fui abrindo um sorriso gigantesco. Descobri ali que meu analista é palmeirense a ponto de usar a camisa do time em eventos de psicanálise.

A segunda vez foi no mês passado, no aeroporto de Guarulhos. Eu estava na fila do check-in e vi uma figura alta, muito parecida com ele (era ele), na outra fila. Foi bastante hilário porque ele estava fazendo um protesto, ao lado de outros passageiros. Gritavam "Avianca nunca mais", algo assim, após um atraso, ele me disse depois, de 24 horas na decolagem. Foi algo de maravilhoso, eu ri muito por dentro.

Contei na sessão, semanas depois. Disse que estava angustiada demais por ter de viajar (eu não tinha planejado) e que vê-lo ali, daquele jeito, foi apaziguador. "Tá tudo bem", eu pensava em looping. E ficou mesmo. Se o seu analista se mete num protesto porque o voo tá atrasado, é porque nem ele, que é fodão, tem jeito pra tudo. Se ele não tem, por que eu preciso ter?

24.8.16

Eu cantaria isso num karaokê (sim)

I'm not in love
So don't forget it
It's just a silly phase I'm going through
And just because
I call you up
Don't get me wrong, don't think you've got it made
I'm not in love, no no, it's because...


I like to see you
But then again
That doesn't mean you mean that much to me
So if I call you
Don't make a fuss
Don't tell your friends about the two of us
I'm not in love, no no, it's because...


I keep your picture
Upon the wall
It hides a nasty stain that's lying there
So don't you ask me
To give it back
I know you know it doesn't mean that much to me
I'm not in love, no no, it's because...


(sintetizadores)


Temos

Analytics :)

3 de junho imaginário

Ontem, eu publiquei um texto triste que tava no bloco de notas do celular. Depois, fui me dando conta de que nada daquilo aconteceu no dia 3 de junho (ou: meu aniversário). Eu provavelmente escrevi aquilo pensando em como seria o aniversário sem ele, mas acontece que quando o dia chegou, foi tudo diferente.

Não teve casa de massas coisa nenhuma. Mas teve o restaurante argentino, na véspera, com um vinho que amanheceu na geladeira e rendeu semanas de "quando vamos terminar?". Teve alfajor de graça, porque os garçons de lá são sempre lindos demais. Não é porque era o meu aniversário - ainda conto sobre esses agrados cotidianos todos.

No dia em si, eu ganhei uma festa. Não nos moldes tradicionais.

Já antecipando o fracasso desse aniversário, fui dizendo que não iria fazer nada (nem um bolinho, pois é). Primeiro porque não sei dar festas, não sei ser o centro das atenções e sei menos ainda lidar com o fato de que posso dar uma festa e as coisas não saírem como eu imaginei (juro que falo disso na análise).

Mas acontece que o meu aniversário caiu numa sexta, que é geralmente o dia em que eu saio pra dançar. Avisei: gente, sexta que vem é meu aniversário. Não vai ter festa, mas venham aí.

Claro que começou uma pressão pra oficializar o negócio. Segui firme nas minhas convicções, mas mantive os tradicionais cupcakes de aniversário, sempre dela. Chamei três pessoas que não são da dança e fui em frente, acreditando que seria só mais uma sexta de rockabilly.

Mas saí de lá com presentes, drinks grátis, recadinhos e dança de aniversário com o crush misterioso.

Eu não pensei na vida que passou. Agarrei aquela que tava ali, disponível, apesar de ainda não saber como me comportar na hora do parabéns pra você.

Que facciamo?

Tem todos os blogs que vieram depois deste. Tem todos os textos ruins deste. Tem a minha vontade de deixar tudo num lugar só. E, ao mesmo tempo, a pena de matar os outros endereços, com seus layouts que amei e as tags sinistras que criei e hoje me fazem rir. Seria errado transformar em rascunho os posts ruins e manter só os bons? Ou devo fazer um blog novo a partir dos velhos assumindo que tem curadoria? Gostei dessa opção. E vou tomar vergonha na cara e colocar Analytics. Passei a noite resgatando textos velhos, ainda não terminei. Mas já, já estaremos em novo e definitivo (?) endereço. Tenho toda uma nova relação com a minha mãe (oi, mãe), mas ainda fico perturbada sabendo que ela me lê (mãe, você tá lendo isso?). Então vai ser bom ter uma nova url e escrever sem tantas amarras. Nada que um Google não resolva, mas (merda, dei a dica).

23.8.16

Dando satisfações

Na cabeça, a ideia era sempre voltar a escrever. Faltava tempo, mas sobretudo: comecei a não precisar, de fato. Anotava as ideias por aí, publicava algumas em outros lugares, contava pros amigos, pro analista. Decidi colocar as ideias aqui, então os hiatos são diferentes, agora, na coluna aí ao lado. Acho que começar a ler o que escrevi tempos atrás me fez ter vontade de escrever agora pra poder saber quem eu era em 2016, o ano depois do ano em que a minha vida desmoronou e segue desmoronando, de modo que aprendi a olhar pro entulho e construir outras coisas. Das coisas que não mudam: ainda ouço Death Cab for Cutie.

?!

Aí que na casa de bolos tem um bolo chamado "Bolo de Chuva". Acho curioso, e pergunto se é uma versão opulenta do simpático bolinho de chuva. O moço diz que não sabe o que é bolinho de chuva. E direciona a questão para a moça. A moça, com olhar de espanto: não, é totalmente diferente. Esta é uma massa fofinha, com açúcar e canela, coberta com doce de leite.

O muro da linguagem explodiu a minha cabeça.

3.8.16

F., M. e todos eles

Há muitos modos de se falar sobre a reforma psiquiátrica ou a luta antimanicomial.

Eu escolhi este: acompanho, há alguns anos, a F., moradora de uma residência terapêutica.

Nesse lugar, vivem, hoje, sete pessoas, todas com vivências longas e sofridas em manicômios. É uma casa, um lar mesmo. Dois cuidadores estão sempre por lá, para ajudar no que precisar.

A moça que eu acompanho, que consegue pagar pelo meu trabalho via Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), tem uma cachorrinha.

Na última semana, ela e o pessoal da casa foram ao hospital visitar uma outra moradora, M., que estava em estado grave de saúde. M. pediu para ver a cachorra, da qual gostava muito. Pois eles foram, com a cachorra, e puderam ficar no jardim da casa de saúde.

M. morreu no último domingo. Teve a chance de se despedir. Tudo isso para contar que se não existisse reforma psiquiátrica ou luta antimanicomial, F. e os outros moradores não teriam um lar. F. não teria uma cachorra sua, pela qual se responsabiliza. Muito menos um dinheiro que lhe possibilita querer e poder ter algumas outras coisas, como um quarto só dela, que ela construiu na cabeça e de verdade. Ou o trabalho semanal de uma acompanhante terapêutica.

F. não seria atendida em rede, por um monte de profissionais com saberes diversos. M. não teria criado esses laços (talvez outros), não receberia a visita da cachorra e talvez não pudesse nem pedir para se despedir.

Que a luta não acabe nunca e que a reforma nunca fique totalmente pronta.